
Ele vivia muito bem com suas medidas sempre pela metade.Ele vivia muito bem com suas temperaturas sempre mornas.Gostava de viver assim:situado ali,bem no mediano.Qualquer coisa de intermédio.
Não esquentava muito a comida,com medo de queimar a língua.Não gostava de sorvete, demasiadamente gelado.Era um sujeito que,estando sempre a procurar medidas perfeitas,inquietava-se com a tortura à qual se submetia diariamente.
Assim que acordava,após pentear os cabelos de modo que não ficassem muito arrumados e nem muito desgrenhados,tomava seu café nem muito forte e nem muito fraco.Vestir-se era sempre um dilema.Passava horas em frente ao espelho pois o modelito deveria apresentar-se entre o esportivo e o social.
Pegava então seu carro,nem muito velho e nem muito novo,e dirigia-se ao trabalho que não pagava muito mal e nem muito bem. No caminho enquanto atingia a velocidade ideal,cantarolava canções...nem muito melancólicas e nem muito alegres.Era feliz,nem muito e nem pouco.Era feliz e ponto.
Acontece que ele não soube explicar muito bem o dia seguinte.Quando acordou não houve pente que desse jeito em um cabelo que insistia em manter-se despenteado.Optou então por uma boina.Mas,deste modo,não conseguiria arrumar-se do modo rotineiro.Começou a afligir-se com todos aqueles incovenientes.
Quando decidiu tomar café,ainda de chinelos,irritou-se quando perdeu o controle e deixou que a xícara transbordasse com todo aquele líquido preto.Espantou-se muito mais quando sentiu seu gosto extremamente amargo.O mesmo café do dia anterior.
Pegou o carro(que nesta manhã parecera-lhe tão velho) e decidiu dar uma volta.No porta-luvas escolheu um cd.Notou então que a música que ecoava era a mesma do dia anterior e de todos os outros.Mas agora era insuportavelmente triste.
Decidiu então ir traballhar.Talvez quando lá chegasse encontraria tudo de volta a sua normalidade.Mas de súbito esta idéia pareceu-lhe estranhamente absurda.O trabalho pareceu-lhe rídiculo demais,o salário mal pago demais,o cargo indesejado demais,tudo exacerbado.
Não sabia o que fazer com aquele dia.Tentou dormir,não conseguiu.Tentou ficar em casa,não conseguiu.Foi então que decidiu caminhar sem rumo.E como caminhava,sentiu sede.E a sede que sentia não cessava com água.
"Quero um sorvete"pensou.E enquanto o saboreva escondia-se por entre árvores,como se aquela atitude o tornasse um clandestino.Aquilo não era certo.Não era certo aquela sensação tão extrema.Era prazeroso,mas não correto.
Voltou para casa,no final do dia,com o gelado na boca e o remorso nas costas.Gostaria de repetir o feito,mas não era capaz.Tinha sido apenas um dia.Um dia que passou e ficou para trás.Não conseguia viver com aquelas extremidades.
Não se lembrou de nada na manhã seguinte.Arrumou os cabelos mediocremente como sempre,tomou seu café no ponto certo como sempre e seguiu para o trabalho,como sempre.A sua vida,segundo ele,estava na média.Nunca mais conseguiu que a xícara transbordasse novamente.
***
Era para ter ficado bom,mas fugiu do meu controle.
***
Créditos da foto:
Toma01.
13 furtos:
Ah flor, texto perfeito!
E muito obrigada pela força..
quando tu flou cmg hj no msn não tava, mais respondi depois tá?
bjo
ai que lindo *-*
nossa gata, perfeito mesmo.
amei sabia?
serio, me fez pensar muito, minha xicara de café está sempre igual, sempre nem quente nem fria, na medida, mas uma medida que faz mal.
vou ficar louca se continuar assim...
eu salvei no meu pc, pq me fez pensar muito jesuis, e gata, acho que isso fez bem...
amei seu blog *-*
beijinhos cherry ;*
Julgas isso como o quê? Se não bom, ruim, ou fostes acometida pelo mal da personagem: julgas mediano?
Eu julgo como de muito bom tom. Na medida certa que uma boa leitura deve ter; agradável.
As coisas pra mim são tão exacerbadas. Mantenho-me gélida ou fervendo, mas nunca morna. Amo ou deixo ir. Jamais deixaria de perceber o doce sabor do sorvete adormecendo meus lábios. Jamais deixaria o cotidiano me cegar para o simples e prazeroso.
Dê-me emoções, por favor!
Parabéns pela visão e pelas palavras!
Beeijos!
_
Resposta: Teatro Mágico é a minha paixão. *-*
Se não 8, e nem 80...
GIMME MY OLD CÉSAR 88! :)
Não de que jeito era pra ser, mas gostei muito do jeito que ficou!
costumo chamar vidas assim de vidas mornas.
(Pelo que vi, foi escrito em 31 de agosto, não foi relaxo meu não, mas é que o blog não mostrou que você atualizou).
;)
Juliana, gostei muito do seu blog, que conheci através da sua visita ao Canetas Engatilhadas. Está linkado, ok? ;)
Poxa, assim fico até acanhada. :B
Muito obrigada!
Já notou como suas palavras sempre se encaixam perfeitamente umas nas outras, tornando a leitura quase uma dança?
Uma réstia de luz no crepúsculo
Uma súplica presa na brisa
Um caminho sem fim
Pela terra da tua lembrança
Convido-te a ver as cores do diadema da Noiva do Mar
Mágico beijo
Uma réstia de luz no crepúsculo
Uma súplica presa na brisa
Um caminho sem fim
Pela terra da tua lembrança
Convido-te a ver as cores do diadema da Noiva do Mar
Mágico beijo
mais cade voce e os seus posts!?
:/
se fugiu do seu controle, foi pra ficar melhor ainda que o esperado.
muito bom, parabéns.
Olharei para trás e verei suas pegadas, lado a lado com as minhas flores.
Muito obrigada!
Beeijos! ;*
Capitu
Seu texto caminhou no conto cego, escorregou no conto G e alçou vôo no ponto certo, ligando, por fim, essa narrativa linear a um conto médio.
Você tem um jeito hábil de mexer com as palavras, entretanto, você deveria bulir mais com o leitor e gozar mais dos frutos quirais da escrita.
No texto, os signos entulharam a estrada da imaginação, não intermediando a uma narrativa meio a meio. Melhor seria subir uma serra escura a esse labirinto retilíneo de 8 a 80 degraus.
Você me pede e eu digno lhe respondo!
Talvez você tenha que se despir mais, ousar mais, aproveitar o veículo da literatura e rebolar um ritmo de vocábulos e fatos que extrapolem o pré-vísivel.
Enfim, se o poder de criar é um dom divino; você é a poderosa.com.
Vá minha naja!
Envenenar também é remédio!
Escreva e viva com tesão!
Sr Pacova
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